terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Um ponto no infinito




Há um ponto no infinito
Novo espaço
No tempo do meu cansaço

Este olhar
Amealhando o medo
Franco e ditoso
Vive
Do
Absoluto
Sossego
*
A noite cai
Esvai-se o dia
**********************
(Foto - vistas da minha aldeia)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Rompantes - I -

Indigestão de peixe
é comer minhoca
com recheio de anzol.

**

Pontadas nas costas:
motivo maior
da insônia do faquir.

**

Por trás do feroz leão
Havia uma avestruz
Com a cabeça no buraco.

**

Um mar seco
Cabe inteirinho
Dentro de uma concha.

**

Se se visse no espelho
A barata entenderia
O porquê da chinelada.

**

Frederico Salvo

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

um cartão escrito a mão



terminei o cobertor


que costurava desde a primavera.

adormeci enquanto escrevia

no sofá, ao lado da janela.

sinto muito pelo tempo

só serve para abrir o que não quero.

...tento negociar

mas optou avançar a realidade que nos rodeia

só por estar entre voce e a porta...

volte logo.



(já não sei mais te imaginar)





Vania Lopez




terça-feira, 7 de dezembro de 2010




















O CUME

subiu a encosta e a cada curva saudavam-na

jasmins e sardoeiras até ao cume, ponto mais alto

onde o rosto se abre, manhã clara, em pleno

espanto


fora assim, de encosta em encosta, de cume em cume,

que acabara o dia,

no aconchego do teu corpo, abóbada celeste, e o lume

paradoxo da geometria

e seu encanto.



arlindo mota

sábado, 4 de dezembro de 2010

Onde estou o meu olhar, vive!

Nunca fui
com vontade de ficar,
se fico é porque estou!
Onde estou
sou a livre vontade de perdurar.

Se parto
deixo o silêncio
não corto ramos
ou pedaços de jardim!

Na sacola
tenho sementeiras,
atiro-as na terra…
Sem vozes ou cantares!

Onde o meu corpo vive
a minha alma está presente.

Onde a minha alma vive
o meu corpo é lugar habitado…
Sem fardos ou bagagens densas
para satisfazer olhares abstractos!

Nunca fugi
com medo de ficar,
em tudo oferto o meu olhar
…onde estou o meu olhar, vive!

Assim como o antevês…


Ana Coelho

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

faca de casa


é de pó

de terra que desmorona
o sangue é mais grosso que água

já disseram que é ilusão
mas quando o espírito tem vontade
a mão vale por dez

o papel precisa de algo para acreditar
é sua maneira de se sentir vivo
às vezes encontra seu destino
na mesma linha que lutou para sair

não se guarda
não sossega os ânimos
não desaparece
não se contraria

o tempo não devolve o relógio
ouvir música através das paredes
não conforta

os peixes nadam todos os dias
minha profissão não é igual de todo mundo

mais coisas passando pelo céu
palavra por todo lado
e nenhuma salva de fugir
de tão cansado

(cansaço de sentir sua falta poesia...)



Vania Lopez

domingo, 21 de novembro de 2010

FUGAZ


FUGAZ

Exíguo, lhe disse alguém, reflectindo sobre o tempo

e algum desdém…


Mas lá foi crescendo, crescendo, consoante a terra, o húmus e as circunstâncias,
aquele tronco, agora forte, robusto como a mãe…

“Sou como o espaço, o horizonte, o mundo…” rejubilou.


E foi rodando, rodando, rodando sempre, na esperança que antevia, até que
subitamente se deteve junto a um amontoado de ramos frágeis, inertes, prostrados.


Aí, caindo de vez em si, decepcionado, humildemente balbuciou:

“Afinal… não passo de um segundo”



arfemo
arlindo mota

sábado, 20 de novembro de 2010

contra o céu


é muito possível que o segredo


do seu feitiço

consista na cor que se olhe

na mesma distancia

entre a realidade e a promessa

a música se enche de esperança

como ortolanas

em pleno vôo para África

faz o céu parecer menor do que nunca

e o amor imenso

num jeito desprotegido

preso do lado de fora

...de um abraço



Vania Lopez


sexta-feira, 19 de novembro de 2010

TEMPO-AMPULHETA









______________________________________________




Cedo cedi ao mundo as madrugadas
E à noite me entreguei em sombra.
Do mundo queria todos os sonhos
E todos se perderam.
Cinza na ruína dos dias


E assim, que fazer de mim?


Apavora-me
O ruído das fontes
O marulhar das horas
O gotejar do tempo
Passando impassível
Sem me olhar
Sem escutar meu grito
Sem tocar meu choro


E assim, que fazer de mim?


A idade decompõe-se.
 Fracções.
Instantes.
A memória multiplica os dias.
Lugar semi-breve
Marcado em mim.
O espaço-tempo converge e colapsa.
Sufoca-me
O Espaço.
Excede-me
O tempo.
Não sou mais
que um
ponto

.
.
S
                    O
                                          N
                  H
O
.
.
.

Como areia escorrem letras,
Estilhaços.
Versos de vidro e de aço.
Instável
O solo que sustem os dias.
Volátil
O chão que suporta os passos.
Este tempo que me torna
Palavra de pedra
Ânfora quebrada
Desalinhado linho.

Estremeço.
Como se fosse tempo
Recém-chegado,
Como se fosse dor
Recém-nascida
Em permanentes águas.

Bago de uva sem rosa
Meu corpo-urze.
Aro de fogo circular
Cingindo meu redundante pensar.

E assim, que fazer de mim?



______________________________________________




quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Por quanto tempo

O que temos ainda para caminhar, por quanto tempo, por quantos quartos escuros teremos que andar a vasculhar o que está mesmo ali..mesmo aqui, mesmo aí...

Que fazer de um olhar aberto para o medo, para a constatação diária de um farol perdido no mar...?




http://www.youtube.com/watch?v=677los63W5k&feature=player_embedded

domingo, 31 de outubro de 2010

Por aqui há chuva...


Por aqui, há uma chuva que cai e vai alagando os caminhos... agora mais forte, sim, mas mais fortes são os laços que nos unem e as palavras que nos conduzem por muitos outros caminhos já em construção.

Gosto desta sensação de me encontrar entre um beiral e outro, e nos intervalos, deixar escorrer uma gota pela minha face, molhar as pontas dos dedos e riscar nas paredes um nome - Poesia
Dedicado à Saozinha pela apresentação do se livro "Longos São os Caminhos", ontem dia 30/10/10 em Libsoa

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Vida simples

Imagem de Veselin Stefanov Kenchev



Uma descoberta.

Uma lágrima encoberta.


Uma desilusão


Um amor proibido.


Solta a paixão.


Coração alerta.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Sempre que há um princípio

( Tela de Paula Rego)



acordei uma tarde dominical
para que me dissesse
onde moram todos os dias
que me vestiram
pelas mãos angelicais
de uma Primavera
que já se foi…

corre agora pelos campos
amansando
as folhas secas
desactivadas pelo Outono

as árvores sentam-se
num trono bordado a ouro
que se encolhe sempre
que há o princípio
de uma nova noite

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Línguas


“Uma pessoa ocupada em servir nunca dispõe de tempo para comentar injúria ou ingratidão”.


Enquanto línguas cortantes, ferinas,
Só dão notícias das vidas alheias.
Enquanto arestas, farpas pequeninas
Se enroscam em ardilosas teias,
Outras entoam constantes, divinas,
Em outros pontos, em outras aldeias
A poesia de sensatas rimas,
A melodia de maviosas colcheias.
E nessa arte, desprendidas servem,
Enquanto as lavas desse mundo fervem
Num vulcanismo de intensa fúria.
São como botes contra a correnteza
Desafiando a humana natureza,
Num oceano de ingratidão e injúria.


Frederico Salvo

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Nudez

(nudez azul -Pablo Picasso)


Se os fantasmas do passado me vissem nua
Que diriam da minha clara nudez
Da minha sandice total
Que me prende no interior de um postigo aberto?

Que seria de mim
Sem esses dogmas instituídos na minha pele?
Como veriam o meu estado excomungado
Pelo que resta dos imortais?

Interpelo-os na sua sanidade mental
E quero muito saber
Por onde anda o meu corpo nu
Incendiado pelas suas mãos ainda quentes
Os seus corpos ainda opulentos
Se eu já nada sei de mim
Desde que me despi para eles

Quero-os com todas as roupagens
Que os diferencia da morte
E nada os trai
Porque o seu nada
É só um episódio da vida real
Tão real como o sonho
Que me traz sempre à noite
A órbita de um corpo celeste

terça-feira, 7 de setembro de 2010

AUSÊNCIA (indrisos conjugados)


I

O que tens a me dizer agora
Que já vai alta e avançada a hora
E as nossas almas tanto se confundem?

Se ao calar-me surge o teu nome
E um calor em brasa me consome
Sob as lembranças todas que nos unem.

No quarto as horas, em insônia, voam.

No dorso meu as noites se amontoam.


II

E eu que nem sombra sou de Atlas,
Pra sustentar a noite e estrelas altas
E nem a lua cabe em meu sorriso,

Fico a rolar pelos lençóis, insone,
Qual pena leve n’olho do ciclone,
Perdendo o sono ao soar dos guisos.

E os latidos dos cães ao longe ecoam;

E as horas todas no teu mar escoam.


III

Pelas marolas vão meus pensamentos,
Como jangadas ao sabor dos ventos
Que atormentados sopram-lhes as velas.

Em plena madrugada vou singrando,
Os ventos irascíveis vão uivando
Nos meus ouvidos, alto, o nome dela.

As horas todas feito vagas soam.

Na arrebentação rugindo me atordoam.


IV

Agora em meu leito como náufrago,
Sentindo, da ausência, o toque áspero,
Vou recolhendo o que restou de saldo:

Uma imensa dor, um modo trôpego,
No rosto opaca cor, um pulso rápido...
O que sobrou de mim sob o rescaldo.

As horas todas queimam, incendeiam;

As minhas cinzas soltas devaneiam.



V

Quando ao amanhecer a brisa leve
Me presenteia com um sono breve,
Vejo-me em sonho a beijar-te a face...

E a penumbra ganha colorido,
E o meu olhar se enche de sentido
Sobre o calor divino desse enlace.

As nossas horas todas se confundem

Sob as lembranças tantas que nos unem.



Frederico Salvo

domingo, 5 de setembro de 2010

Fragil o pensamento.









Delicado

frágil o pensamento

subtis os traços

cândidos

alvos de brancura

imensos

centros que gravitam

pureza

infinita das coisas simples

leveza

transcendencia oculta

alma

que vagueia

nos espaços

infinitos

perdida em mares

mesclados

de turquesa

rosáceas estrelas

rosa

dos ventos.


(foto José Silva)

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

estampa

o ligeiro ondular da flor vermelha


era um canto insistente

na coluna do vestido



como uma chama no fio da seda

brincando de ser vento na pele

queimando, balbuciando

talvez mudança de inverno para verão



estampa no espelho

o sussurro do babado

admirava o vestido

e conseguia lembrar do corpo nele



(um corpo direto na boca do vestido vazio)



o cheiro sempre presente do tecido

fazia ficar assim por dentro

como flor vermelha...



Vania Lopez

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

TEU CORPO AVE CINZENTA



teu corpo ave cinzenta simulou um voo

ao encontro dos deuses, mundo dos ses,

em movimento pendular: ser e não ser,

cintilando ao retornar pela última vez


o corpo brotou manancial de água fresca

sobre suave tapete de plátanos em flor

sem cuidar de saber se ao partir voltaria:

eclipse ou expressão circular da geometria


o corpo ave cinzenta aninhou uma última vez

no meu colo,e ali ficou, delicada,serena forma,


depois despertou tão naturalmente naquele dia,

que deixou a ilusão de ser eterno – e não seria?


arfemoarlindo mota

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

o primeiro dia um

de manhã olha o espelho
que lhe devolve o olhar

com respiração ofegante

segura o pincel sem mudar um centímetro
controla a chuva
recorda o dia depois de ontem

seus desejos colhidos pela manhã
na mistura inicial do sol
enquanto ouve o vento
põe uma palavra que adoça a boca
e lembra dos quadris de Elvis Presley

no meio de tudo
um amor sem etiqueta
sem sangue, dor ou tremor
continua pela casa
dentro do álbum de família

(um olhar e uma fome)

em algum momento da noite
por algum motivo
como se não combinasse com o lugar
ou fosse caminhar onde havia sol
o amor se levanta e vai embora
inteiramente vestido
de sapato e casaco

ela começa uma conversa por escrito
onde tranquila possa enraivecer
onde possa sonhar errado

a solidão entra sem bater
olha ao redor, suspira
percorre o mesmo caminho até a cama
e se cobre da cabeça aos pés

(sem sequer tocá-la)

no deserto da cama
vendo o fogo gelado arder
ela é a flor


(o medo a mantém viva)


Vania Lopez

domingo, 15 de agosto de 2010

Tormento


Onde estarão as cores do mundo,
Que outrora enfeitaram meus dias
E celebraram comigo a alegria?
Onde estarão as bocas que cantavam libertas
Os cantos de imaturas letras,
Mas de incomparáveis força e sentido?
Meu Deus!
Onde estarão a pureza dos meus gestos
E a receptividade crédula aos gestos alheios?
Onde andará a inocência
Que procurava em tudo o verdadeiro sentido
E que se ressentia por não ser ainda mais cristalina?
Tudo deu lugar a este tormento
Onde cores são cores apenas;
Bocas cantam rotineiramente
Cantos de letras maduras e repetitivas;
Gestos são sempre comedidos, objetivos;
E a inocência vem apenas esporadicamente
Passear, tímida,
Sobre as frases dos meus versos.


Frederico Salvo

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Dois Pontos

(foto D.M. baixas correntes no Rio Paiva)


Quis encontrar-me num ponto
Onde teu corpo descansava
E a tua alma me esperava
Mas sinto que me fui
Enquanto dormias

Foi um momento isolado
Quando as ideias
Te afogavam a mente
E o pensamento
Te domava o espírito

Já não me encontro por aqui
Saí deste ermo em tons de azul
E fui-me ao encontro do brilho
Que reluz no centro da esmeralda
Que me roubou o último suspiro

A alma é o meu ponto selado
No meu olhar obscuro
A vasculhar-me por dentro
E a deformar-me por fora
Enquanto espera

O meu corpo caiu no vazio
O teu inteirou-se do meu
Nesta corrente que me engole
Enquanto o meu rio abarca
A nova união de dois pontos

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Absorto

E que venha a saudade!
Que me arrase de vez!
Enquanto tiver sentido
Enquanto for absorto
De mim esse teu ar solto
Discerne como germe
Que corrói por dentro
A sagacidade da aurora
Calada a cada hora, sonolenta
A noite vai quente, está quente
E tu meu amor, tardio
Não afogueies o persistente
Como quem flama pela gente
Enquanto o repouso surge
Ao som de um lamento

hoje


Nos cabelos
a água salgada da nostalgia
No olhar o horizonte
cor do fogo
Nas mãos
o vento que foge levemente
logrando dedos
No rosto a tranquilidade
serena maresia
Nos pés um imenso
oceano azul suculento
No corpo a leveza flutuante
do ar fresco
No peito
este amor que arde
sem saber onde

domingo, 27 de junho de 2010

Transformações

(foto, DM)
*
Imaginação ou sonho
Ou só libertação da lua
Quando se deita no meu peito
E me diz de um foco
Invertido no meu corpo

É noite
E eu sou dia
É mar
E eu sou rio
É montanha
E eu sou céu
A cobrir-lhe as partes
Mais íntimas
Aquelas que se deitam
Sempre comigo
Quando fecho os olhos
E a sinto
Corpo no meu corpo
Alma na minha alma
Sangue no meu sangue
Vida na minha vida

Imagino-me assim:

E toco-me
E sinto-te
E m’enlaço
E desfaço estes nós
Que se manifestam
Ao acaso
Pelas mãos de um ocaso morto

sábado, 26 de junho de 2010

Esfinge


Tremo...
Diante desse abalo sísmico.
Um lábaro de tecido fino.
Do som, ao ribombar do sino,
A onda em amplitude máxima.

Calo...
Diante desse monte íngreme.
Um obelisco imensurável.
Segredo uno, impenetrável.
Um sentimento quase físico.

Finjo...
Que tudo isso é pouco, é ínfimo.
E vou como se fosse nada.
Da face pétrea, inanimada,
Travada, já não movo um músculo.

Amor...
Matiz que a tela virgem tinge...

Extremo.
Escalo...
Esfinge.


Frederico Salvo

sexta-feira, 25 de junho de 2010

OS LOUCOS DA MINHA RUA

O ar que se respira, carbono negro, denso,

quase impuro, nada tem a ver com a cor,

nem com as guelras (do odor não me lembro)

vem da memória, dizes, talvez do coração,

pois nem o pulmão que o inspira, sente.

Assim se vão passando os dias, indolentes,

aqui no asilo, onde às árvores chamam gente,

e elas murmuram entre dentes, qualquer coisa,

que bem podia tratar-se de sementes.

Mas não, é coisa de doentes…


arlindo mota (arfemo)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Sou-te assim


LUCIAN FREUD - "Mulher com um Cão Branco" (1952)

Sou-te assim:
De dia anjo amigo
De noite Casanova
Amor gizado em olhares
E com palavras soletradas de desejo
Salta o malandro
Deito-te em braços que te enrolam
Luxúrias escritas em deleite
Teias tecidas de gemidos
De quem sempre te quis
E da loucura dos carinhos
Nasceram os nossos Pomares,
Que germinam agora vida com brilho,
São aromas de Primavera
Orvalho nos nossos olhos
Já de madrugada
Adormeces em sonhos de princesa
Mulher de volúpia
Ao acordar és sempre mais bela
Vestes-te de Mãe
E entre sorrisos
Dizes-me:
A noite já nos espera


José Luís Lopes

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Morrer é ponto certeiro


Terminam os anos das fogueiras acesas
Dos melros a cantar nos telhados

Nos olhos a verdade
Nas mãos a cegueira
Ensaiando a benemérita vontade

A verdade de quem morre
Ao levantar do chão
As memórias de quem sofre

Porque morrer é ponto certeiro
Num ponto
Onde o vento
Levanta o Homem...

É ser livre marinheiro
*
A minha singela homenagem a José Saramago

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Canto negro

a terra enxugava o suor dos pés

ao lado o cafezal
a poeira levantava do chão
era feliz enquanto a dança durava...
o sol escorria no rosto, no corpo
quando o luar batia como noite
na pele negra
botava fogo no coração da gente...

Vania Lopez

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Estirado na panela

era o último cigarro!

retive a fumaça
deixei em fogo brando a panela.
achei sua foto triste
ao lado do vaso sem flor.
quando desliguei o fogo,
o assado estava estirado
no fundo da panela,
seco de tão pouco amor...


Vania Lopez

sábado, 5 de junho de 2010

a parede nunca é certa

diga que está voltando

deixe que seja verdade, só por enquanto
me tire a sensação de não saber o que fazer
me deixe por um minuto quase acreditar
que escrevi antes do papel esquecer
arrume uma desculpa,
pra ajudar nas horas difíceis
faça que isso não baste, não tão perto
deixe que a outra pia
faça com que me sinta mal!
não me deixe dar conta de que não consigo aceitar
deixe só a noite saber, que não preciso
que o sol fique no céu,
nem que a terra pare de rodar
me deixe docemente constrangida
as quatro da manhã,
me dê uma mania nova,
me faça achar graça
num novo descascador de limão
me dê o fascínio de uma agenda nova.
não me deixe notar,
que nada menos será o bastante
me dê estrada,
não me dê fé!
me dê um voo parado no ar
e só voce de testemunha,
não me conte que a diferença de se estar só
é que não há barulho!
ah, me perca de vista antes disso...


Vania Lopez

terça-feira, 1 de junho de 2010

Só pensar ...

Onde andaste,
se nos dedos que sustenho
trouxe os teus jubilosos,
em cores sujas
das cerejas que mordiscavas…
… minhas são as essências de aleluias
e um piano tocado no imaginário
florestas e sabores possantes,
e o resto é mais
que realidade acordada
no solitário pensamento.

Sou poeta livre de asas e vou
no tempero dos sonhos
que me fazem não ser
de ninguém senão do vento
que me leva para longe de mim…
... que no sol me deito severamente,
e no mar me abrigo.


Meu mar,
meu lindo mar
acalmado de azul incandescente
e minha lua parada à espreita
o cantar da noite
o passar da tua sombra…
… meu tormento!
Pensei invadir-me, o pensamento.

Rosa Magalhães

Só pensar...

Ser quimeras à tua porta,
cinzel de artista quebrado,
não me adia a falta!
Nem afadiga meus colossais de água
… a matar-me de sede
… a pintar-te de novo
Bonitas são as tardes do pensamento!
Tardiamente…
… cheguei,
para beber-te num rio manso,
de onde um dia vim
e esbocei-te traço carburado,
… inquietante.

Rosa Magalhães

Só pensar...

Vou apressar uma melodia a seguir-te!
Vou seguir-te noutra dimensão deserta
arrojada, despojada e amar-te…

… um simples botão de rosa em flor
que se abre.


De onde volto
enrolada de amor a desenrolar-te!

Rosa Magalhães

Só pensar...


Teu perfume sonolento é presença encoberta de sorrisos.


O pintor que avisto cair na voz do pensamento.

Estarei à chegada a ver-te partir...

...serei clave de som largada a subir,
o vapor e ave solta, que no peito sem dor pisa a silenciar-te.

Rosa Magalhães

Só pensar...


No dia que os pensamentos conseguirem voar para longe de mim, não te ausentes. Serei asas de vento a divagar pela mente durante o acerbo, no cair de sono…

Rosa Magalhães

domingo, 30 de maio de 2010

Só distante...

.
Saber-te distante
é ter-te
no pensamento
por tanto tempo.
hoje vi-te
dentro do peito
sofri por inteiro
nesse abrigo
que me dói tanto.
depois,
depois fui-me embora.
peguei nos sapatos
e saí vagarosamente.
trouxe comigo
o teu silencio
e por não mais querer
ver-te
sorri de contente.
depois,
depois respirei fundo.
segui meu destino.
amarrei-me amanhã
que me irá
devolver-te.
.
Rosa Magalhães

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Criação in Verbos

(Tela de Carlos Dugos)


Vejo-te em todos os rostos
Em todos os momentos
Em todos os poemas que escrevo
Em todos os centros que se movimentam
À roda do meu próprio centro

(Será que os outros vêm assim como eu
E duplicar
A triplicar
A multiplicar?
Ou serei eu uma fonte ejaculativa
De tantas rimas terminadas em ar
Que nem consigo perceber que não dá para respirar)

Este ar poluído que me entra pelas narinas
Que me entala
E m’ estala
Despertando o olfacto
Encarcerando o gosto
Amolecendo a dor deste sentir
Que se confunde com o absorver
no
Imediato
Este suor morno
Que se espalha pelos corpos todos
Que eu conheço

Que confusão
Que baralhação
Este poema não servir para criar
Nada
Mesmo nada
A não ser uma dor aguda
Num qualquer poema do género - fêmea
Por não saber rimar
Quanto mais poetar

Não quero deixar de sentir este ar
Próximo do verbo ir
Para que se vá
Mas rindo
E escrevendo sem nada pedir
Há tantos tempos vendidos ao meu próprio sentir
Que há sentires que valem zero
Na medida exacta de verbo

Há na verdade um único Verbo que eu conheço
Que me fará ir...

domingo, 11 de abril de 2010

Lar


Aqui, onde mora a atemporalidade,
Nesse espaço de isenta ignomínia,
Minha porção de firmamento,
Meu quinhão da ancestralidade.
Aqui, onde me aflora a criança
E me dispo da sociabilidade,
Há essa calma no final do dia,
Esse afresco de luminosidade...
Meu lar, meu lar querido,
Onde repousa o meu corpo,
Onde aporta o meu espírito.
Bendito seja meu lar...
Esse protótipo do infinito.


Frederico Salvo

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A Cantar, Ai Que Alegria


Seria assim
Que desceria
A Cantar
Ai que alegria
A gigante escadaria
E sonharia à noite
Em doce calmaria
*
A compasso
Num só dia
A cantar
Ai que alegria
Tracejando a vida
Que em sonhos
Te embalaria
*
Seria assim
A cantar
Ai que alegria
Que é esta cantoria
Em tom breve
Mas tão leve
Sem ti não cantaria
*
O grande músico português Fausto, é um dos maiores em musica de intervenção
baseando o seu trabalho na musica tradicional portuguesa.
Quem não lembra da Célebre "Rosalinda" e "Namoro" ?
*
Este poema resultou assim, pensando nele e na nossa musica tradicional

domingo, 4 de abril de 2010

Não te creio Senhor!?

Dei o meu corpo
ás tuas raízes…
Senhor
e também dei a alma
que te entrego fiel!
…doei-te o meu existir
nu a teu olhos
abro os braços febris,
abro o peito ao fogo que me habita,
e o sentir dilata-se
cresce, nos fios do teu lar
ou nas contracções dum sol
escorrendo sem rumo,
na vertente da face
onde separo a vida
…onde a fé é um eco
deste mundo em sangue…
Não te creio, Senhor!
…e sei que morro!
sabem as veias,
o acordar diurno das fogueira
…e sobe a solidão
na penumbra nocturna
cavada em restos de luar…
Não me sinto profeta!
Não o sou, sei-o!
não possuo no ventre
o ritual dos sábios
ou as encéfalos sem pele
dos mensageiros do céu!
…mas não te creio, não!
Senhor
agora os homens cantam,
e canto com eles
entoações cinzentas duma espera inútil
ao câmbio do tempo!
…Não! Não te creio!
suprimo à mente
a imagem do teu templo
recolho da razão íntima
todo o cepticismo,
que a certeza decifra
na própria incerteza!
Creio no irreal
no vazio indefinido do absurdo…
Na paz!
Busco-a no meu espaço,
mas não a tua paz
onde os deuses se enlaçam
e se abandona o real!
Senhor!
sim creio na paz
na que oculto no útero
com o fulgor bravio
do silêncio que invento,
lanço à tua silhueta
o meu discreto desafio!
Não, Senhor Deus
não te creio…
Contudo
invoco-te confuso
da certeza do teu existir!
desconheço-te!
…sabes o meu nome
…eu sei a distância
pelo tempo fora…

quinta-feira, 18 de março de 2010

EM CADA OLHAR

...Amigo, cada vez que sinto seu cheiro cria-se um fio de esperança num lugar que os olhos não podem ver, um gemido, um choro vindo lá de dentro, o certo e errado cai por terra cantarolando uma canção a si mesmo. Gosto quando meus pés doem, fazem esquecer meu joelho, de que me sinto velha de tanta coisa, como qualquer menina da minha idade, me incomodava fortemente. A cada olhar sair e mergulhar em seu braço, cada vez que voltava lembrava desse sentimento todo, isso me salvou de mim mesmo. Estava lá, mesmo quando não estava, decifrava seus sons e os pés plantados com firmeza no solo de um jeito que eu nunca tinha sentido antes...Com a vida cheia assim, ouvir sua chegada, num jeito seu, atrapalhava por dentro, voltava no tempo e nas cores pra ver se o tempo passava e o tempo mostrou que podia prosseguir sem sumir do meu mundo, podia ser o que quiser, estava em casa. Quando a chuva cai do céu sem nenhuma razão, a gente não precisa falar muito para se entender, percebo sua voz, queima por dentro e por fora os primeiros sintomas de não ter explicação, mesmo quando tudo está ao contrário, ver a vida falar sem dizer nada, através de seus olhos. Talvez o amor deva ser um braço quente para amortecer a queda de uma angústia forte, de ser o que devo fazer e o que ainda não fiz...


Vania Lopez

Dilema


Porque foste presente e castigo,
Cravados em cruel dicotomia.
Porque foste relento e foste abrigo,
Exata reta em vasta assimetria.
Porque foste o antídoto e o veneno
Servidos nessa taça; homogêneos.
Porque foste o pudico e o obsceno
No oco desse peito; heterogêneos.
Foi que perdi o rumo, o caminho,
E trouxe a razão em desalinho,
Valsando entre a euforia e o tédio.
Ergui um patamar, desfiz os planos,
Plantei certezas e colhi enganos,
Porque foste a doença e o remédio.


Frederico Salvo

quarta-feira, 17 de março de 2010

A Semente-Inspirado num poema de Jll




O tempo prolonga-se
entre o sim e o não.


Na terra os sonhos
hibernam silenciosos
palavras a ser colhidas
numa próxima monção.

E na próxima primavera
a pequena semente
adormecida
brotara na terra
lavrada, revolvida.
e ai a semente
germinarà em flores de paz
e harmonia
frutos feitos vida
amadurecidos
nas madrugadas
de cada dia.


E serão então num tempo
palavras feitas emoção.
Pão da alma, alimento
paras as gerações
que noutro espaço
gente serão.

ACORDO FLOR

Hoje me compreendo mais,

A cada momento me sinto.
E como uma prece de amor,
Não peço,não agradeço,
Vivo.
Embora ainda procure
As palavras certas,
Não me sinto mais
Escrevendo em água corrente.
Torno -me mais sossegadamente
O que sou...
Sem palavra
Que possa me parar,
Só parei quando me perdi,
E disso também me perdi.
Educo minha vontade,
E o mais que eu puder...
Acordo flor,
Como se assim
Fosse meu destino.
Sem saber se morro ao pé,
Se enfeito uma sala,
Ou se sou de casamento.
Se sigo minha importância,
Ou minha responsabilidade...
Agasalho minha sombra,
Decifro-me,
E durmo,como quem
Não tem pecado.



Vania Lopez

sábado, 13 de março de 2010

…dóceis como ópio


não me negues o olhar
agora que já não te consigo ver
os sentidos perderam-se na boca do inferno
na língua de cadáveres esfomeados
penosamente, dóceis como ópio
não rasgues o céu que não te pertence
no brilho que refutas com inglórias
de tudo, que já não te é semelhante,
guarda o fato preto, abutre!
encharca-o de naftalina
quando eu morrer serei as cinzas da tua cegueira,
na garganta do meu silêncio guardarei
os nós do arame farpado dos teus gritos


Conceição Bernardino

terça-feira, 9 de março de 2010

Muro de silêncio

[foto de José António Antunes]

Rompe-se o muro do silêncio
arrancou-o assim o destino
a hipocrisia foi afastada,
envergonhada pela decência
as sombras tiradas desde a raiz.

O futuro instalou a distância no presente.

Os destroços enterrados
o passado os incendiou
na culpa que os nutriu.

A dúvida procura certezas
no escuro que se refugiou
demanda consciência sem nexo
infiltração impossível.

A certeza é lucidez
que a verdade tem guardada
nas mãos lavadas
sem mácula
nem reservas
a recordação não tem memória
só constrói o dia de amanhã
com os olhos abertos no firmamento.






quinta-feira, 4 de março de 2010

"UNA FURTIVA LAGRIMA"



Peguei na roupa de Domingo,

afivelei no rosto uma rosa vermelha

e parti, como quem já viveu.

No caminho, aliviado das estrelas,

guardei uma lágrima de reserva,

sem saber se tu aparecerias pronta

para me receber.

Foi assim que tudo aconteceu

eu acordei tendo a meu lado

o travesseiro húmido e não tinha chovido

naquele dia.


arlindo pato mota
foto e poema

*dedicado e ao estilo de Vania Lopez

terça-feira, 2 de março de 2010

O amor

Permita-me dizer uma coisa:
Ninguém pode ficar imune
De pisar no barro; Nem ficar impune
Por morder a isca boa do pecado
E deixar de lado aquilo que redime
Tudo que ofusca esse claro lume.
Pois a vida é mais do que sublime
E guarda, intermitente, o cheiro do perfume
Que a tudo suaviza,
Mas que ao ficar de lado
(álcool destampado),
Ligeiramente, volatiliza.


Frederico Salvo

segunda-feira, 1 de março de 2010

ABRA E PERDÕE...


...Assim que tu sair não deixe nenhuma meia verdade, nem diga qual é teu segredo. Quando fico
com medo fecho os olhos .À força está no sangue e os olhos brilham. Te vejo por aí, numa lembrança distante ou, quando aparece alguma coisa interessante no céu. Nossas "enes" coisas eu divido. Tu ficas com suas melhores recordações e eu com as minhas. Não tente processar Deus! Isso deixa a gelatina sem sabor,
emagrece mais que os sonhos. Quando pensar em voce vou esquecer que voce morreu e vou estar pronta para me apaixonar, rápido ou devagar é voce quem manda... Vá logo! antes que eu pegue o gosto de não largar e antes que Nossa Senhora revoltada ande de um lado pra outro da sala e os sapatos pensem...



Vania Lopez

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Resposta sem perguntas


(foto de José Antunes)


Existem palavras
Que buscam o sol
Nos beirais dos telhados a descoberto
Ao longo das goteiras
Que a chuva lava e reclama

Olhamos para elas
Em busca do segredo
Para lá das moradas escritas…

Um solitário gesto
Na distância das arestas
Que nos é facultado espreitar

Diálogos mudos
Nos ouvidos com vínculos de emoção
Contactos que tantas vezes
Nos ignoram…

Respostas na sombra
Do desconhecimento que move
O universo por escrever…

Terá a palavra beleza?
Ou a beleza é a utopia da palavra?

A leitura um ciclo aberto ao imaginário
Quando o mundo
Sorri em gumes
De uma lágrima escrita…
E chora no silêncio
De um sorriso coberto de alegria…

Se Poeta És (para ROMMA)


Esperar é um tempo morto
dar é um tempo que aviva a memória
dos que nada têm

Avistar o horizonte
e querer ver o mundo do além
é saber-se eterno
doado á terra de ninguém

Trespassar o véu e cair no céu
é ver o mundo sobre um olhar novo
sorrisos que o rosto contém

Cair no vácuo
essa dor(mente) queda abrupta
que é sair-se de órbita
e ser-se um mero sinal no espaço

São pontos minúsculos
levados pelos ventos tardios
e se poeta és num mar de Abril
serás um jardim à beira-mar plantado
e serão rosas, cravos, e aromas de jasmins
e alguns sorrisos de almas
que já foram de todos os jardins

Inspirado neste outro de ROMMA:
(foto Dolores Marques)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Sei lá gritado!

.
Esqueci de ti
sei lá porquê!
Ocupei meu corpo
e à mente
arremessei-lhe, teatro
ontem fui papel feliz
num sorriso
alongado até hoje
lembrei ao sentir
saudades sabes,
senti saudades!
Sei lá
se me ouves!
Nesta volta
vi que a tudo
escapei
lembrei, ouviste?
Lembrei
e cá voltei!
Aqui tens a pegada
da minha ausência

e uma mão cheia de nada num um olhar,
distante.
Estou assim, quase perdida no sorriso de um palhaço!
Sei lá se volto! Sei lá se vou! Já não sei o que sou!
Ouço, ouço o actor cá dentro e dizem que é mentecapto
dessa louquice eu gosto, não, é pouco!
Adoro e amo ser mentecapto! Adoro ser louco
Adoro gritar o mesmo nome:

Sei lá! Sei lá! Sei lá! Gritei, e pronto!
.

Impulso Inicial





Partiste.
No prenúncio do tempo,
Em tempos ainda sem tempo.

Nefanda explosão original.
Sem ti,
Sou só Imortal.



Vagueei por profundos espaços,
Espaço sem fim.
Expandi o Universo em infinitas fracções.
Apenas para te encontrar.


Só em teu fragmento Sou.


Nefasta implosão original.
Mundos sem mundo,
...(onde me perdi).
No início do tempo,
...(eterno, sem ti).


Passo descalço no rasto do sonho,
Matéria negra é pranto incontido.
As estrelas são lágrimas cristalizadas,
Reflexos-luz de galáxias geladas.

Traços de sóis extintos,
Paralelo é o movimento de nossas partículas.



A existência é parâmetro variável.
Composto.
Decomposto.
Num nebuloso sistema.

Na via do entendimento,
Espesso é o espaço-tempo.
Verdade curva da nossa relatividade.


Perdi no tempo o tempo.
Suspendi o contar das Eras,
Sem horas.


Determino o recomeço.
Nosso novo começo.

Renuncio à perpetuidade.
Na memória serei imortal.
Renascer em corpo,
O impulso inicial.


(Este é o último dia antes de mim)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Sonhei ser lágrima

Esculpi em mim
numa só camada de dor,
a lágrima que sonhei ser,
na terra fértil,
dum só rio único
descendo na intimidade
da raiz que cresce.

Improvisei os contornos
com traços de cimento,
à distância dum tempo
concedo a existência
ao inconcreto real
daquilo que sou!
…e todo o corpo liquido
são ossos da língua
que o sonho sustenta
em ruínas de asfalto
…onde o sangue chora
submerso no vazio diário!...

E sou fragor de mim
nas horas que se perdem,
em rios de Outono
como murmúrios amargos
na ausência da razão…

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

" Arfemo"

A seara está madura

os frutos prontos

a ser colhidos

nas mãos

da amizade

a ternura

dos amigos

que se deram.

I

Do olhar de uma

mulher

a luz que os homens

negaram

no corpo da musa

cibelle

o renascimento

do amor almejado.

II

Mas é na hora

da partida

que o amor

mais se sente

da poesia

e do poeta

que marca

a alma

da gente.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Solilóquio


Por onde andarão as palavras certas
Que os versos enchiam em graça e contento?

Estão como palhas jogadas ao vento,
Perdidas no limbo das horas incertas.

Por onde andarão inebriantes musas
Que nuas dançavam em meus pensamentos?

Estão apartadas em claustro convento,
Nos ocos segundos das horas exclusas.

Se o tempo se impõe exato, irredutível;
Se os sonhos se perdem ou ficam pela estrada,
Eu deixo o silêncio completar-me lento?

Esqueça o futuro cego, imprevisível;
Afasta o passado coxo da jornada;
Entrega-te ao Todo e viva o momento.


Frederico Salvo

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Por dentro de fora




dançar e sorrir
o quanto quisermos
estar por aí sózinho
sentir minha aquiecência
provocar um tiroteio
ganhar a aposta
nariz colado na vitrine
trocar as cortinas
ficar desconfiado
correr ente os canavias
reeencontrar um livro
sapatos macios
sol se pondo na hora
escrever no caderno dos outros
um olhaar por dentro de fora
vestir só as botas
ter bolsos metafóricos
trazer uma navalha afiada na lingua
apertar a mão da vida
nas últimas contrações
deixar o silencio sem nome

Vania Lopez